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Autoconhecimento e a Ferida Materna: Reflexões com La Llorona


Ferida materna | Acolher Necessário

Há dores que não gritam. Elas murmuram. Vazando por gestos automáticos, por cansaços antigos e por um silêncio que parece morar dentro do peito. São dores que nascem não de acontecimentos recentes, mas de camadas profundas na história emocional de cada mulher. Uma dessas dores é a ferida materna, um tema que atravessa gerações e se manifesta como inquietação, exaustão, sobrecarga ou a sensação de que estamos sempre devendo algo a alguém.


No círculo de mulheres, essa ferida foi abordada com muita delicadeza usando um conto presente no livro Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés. A narrativa escolhida foi a da figura mítica de La Llorona, uma mulher que vaga à beira do rio, presa ao próprio lamento, incapaz de seguir adiante.


Embora seja uma história carregada de dor, ela fala menos sobre tragédia e mais sobre algo que quase toda mulher conhece: o lugar interno onde guardamos aquilo que não conseguimos nomear, aquilo que nunca foi ouvido, aquilo que nunca recebeu reconhecimento.


No encontro, o conto foi narrado como um espelho simbólico. Não se trata de interpretar a mulher mítica de maneira literal, mas de perceber onde, dentro de nós, vive uma parte que chora por algo perdido. Às vezes é a infância interrompida. Às vezes é o amor que não veio. Às vezes é a exaustão de tentar ser a mãe que nunca tivemos. E às vezes é apenas o peso de se manter forte quando o mundo todo acredita que você não tem o direito de fraquejar.


Há um momento da narrativa em que o choro de La Llorona não é mais lamento, mas um pedido de reconhecimento. É assim também na vida real. Quando a dor insiste, ela não está tentando nos punir. Está tentando nos chamar de volta para um lugar que esquecemos de tocar.


Essa ferida não diz respeito à culpa ou à responsabilidade de alguém. Ela fala sobre vínculos imperfeitos, histórias interrompidas e sobre a forma como aprendemos a sobreviver sem saber nomear o que precisávamos.


No encontro do círculo de mulheres, trabalhamos essa temática observando três movimentos internos importantes:

• reconhecer a parte de nós que ainda espera cuidado

• dar espaço para a criança interior que nunca foi acolhida como merecia

• perceber onde carregamos um excesso de exigência que já não nos pertence


Esse processo não é simples, mas é profundamente humano. É um gesto de retorno a si mesma.


As mulheres do grupo foram convidadas a ouvir suas próprias histórias através da simbologia do conto. A narrativa funcionou como ponte entre o mito e a experiência pessoal. Muitas descobriram que aquilo que parecia confusão era, na verdade, um pedido silencioso de atenção interna. Outras perceberam que estavam vivendo para corresponder a expectativas que não eram suas. E algumas reconheceram que vinham apagando a própria voz por medo de não serem vistas.


O mais tocante foi perceber que, ao longo da conversa, o choro de La Llorona deixou de ser apenas lamento e passou a representar um chamado para que cada mulher pudesse se reaproximar de si com mais honestidade e menos cobrança.


Se ao ler este texto você sente que algo dentro de você se movimenta, talvez seja o momento de oferecer atenção ao que sua história tenta comunicar há tanto tempo. Não é sobre reparar nada. É sobre permitir olhar para dentro com mais verdade e delicadeza.


O processo terapêutico pode oferecer esse espaço seguro. Um lugar onde sua voz encontra acolhimento e onde suas dores podem ser reorganizadas sem pressa. Um lugar onde você não precisa carregar tudo sozinha.


Se sentir que chegou o momento, posso acompanhar você nessa travessia emocional com respeito e cuidado.


Quando quiser, estou aqui.




 
 
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